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Não tenha medo do medo!

  

Monja
Conversa franca com a sábia Monja Coen nos faz entender que ter o sentimento é comum. O desafio é saber lidar com ele

Conversa franca com a sábia Monja Coen nos faz entender que ter o sentimento é comum. O desafio é saber lidar com ele

Por Ana Lúcia Moretto

A mente é algo surpreendente. Ao mesmo tempo que as reflexões nos acalmam e despertam com lances de sabedoria, às vezes são mais perigosas do que cobras venenosas: elas trazem o medo à tona. É o que diz a Monja Coen, fundadora da Comunidade Zen-budista do Brasil.

São tantos os medos que nos rodeiam. Medo da chuva que pode alagar, do time de futebol perder, da doença voltar e do tratamento não dar certo. Tem o medo da morte – da própria e daquele que se ama, de perder a hora para aquela reunião importante e até mesmo de não poder ir àquela festa que tanto desejou. Mas é bom ter em mente que o medo passa. Como tudo na vida.

O que fazer, então? Depois de uma conversa franca com a sábia Monja Cohen, uma das respostas é fundamental: enfrentar nossos medos de queixo erguido.

Por que temos tanto medo?

Sentir medo é natural. Ele vem principalmente do desconhecido. Eu não sei o que está acontecendo, a vida é insegura. Buda dizia que não há nada seguro neste mundo, nada que eu possa segurar e dizer que vai ser sempre assim. Esse controle não existe. A vida é movimento e transformação.

Como tratar o medo?

O professor Sérgio Cortella me disse uma vez que, quando ele vai pegar um avião, pergunta ao piloto se ele tem medo. E se o piloto disser que não tem, ele não entra no avião. Porque aquele que tem medo, vai prestar atenção aos mínimos detalhes. O medo pode ser usado como um elemento positivo. Eu vou ter muito cuidado ao fazer, por exemplo, o meu tratamento médico, vou obter mais informações sobre o que está acontecendo comigo ou com a minha vida e como eu posso lidar melhor com essa situação. E assim diminuir esse medo. Com conhecimento.

Quando nós falamos para alguém que temos medo, todos costumam ter algo para dizer. Isso ajuda?

Precisamos lembrar que cada um de nós é único. A experiência vivida por outra pessoa, por outro paciente, não será a mesma conosco. O nosso corpo reage de uma maneira única. Somos semelhantes, mas não iguais. Há ainda a ciência, a pesquisa. A cada dia surgem novos tratamentos, buscando mais a personalização.

Embora muitas vezes haja um tratamento padrão, ele pode ser aplicado de forma diferente para cada pessoa, por que cada uma reage diferente. Então é muito importante saber que, às vezes, vamos falar com um amigo e ele vai contar milhões de experiências que podem ter
sido ruins e aí você fica mais assustado. Isso quer dizer que eu vou sofrer muito? A sua experiência própria, principalmente se você buscar a serenidade, respirar conscientemente, certamente será outra.

Como enfrentar o medo do sofrimento?

A vida não é sofrimento também? Há sofrimento de várias formas. Físico, emocional. Eu fiz um livro chamado O sofrimento é opcional! A dor existe, mas eu preciso sofrer em cima disso? Tem um psiquiatra meu amigo, praticante de zen budismo há muitos anos, que diz: “A vida nos dá flechadas, que podem ser diagnósticos de doenças, problemas no trabalho, relacionamentos que acabam. Mas nós não precisamos ficar apertando essa flecha e nos ferindo ainda mais”. Eu posso ter o apoio dos médicos durante o tratamento, de pessoas da própria ABRALE, por exemplo, e procurar fazer com que isso seja menos pesado.

Como seguir em frente sem paralisar a nossa vida, o nosso dia a dia?

O medo está lá, mas ele não pode me paralisar. O medo pode me tornar mais cuidadosa, o medo pode me fazer buscar formas de sofrer menos. Com ou sem diagnóstico, saudável ou não, todos nós vamos morrer. O que nasce morre.

Mas nesse intervalo, vamos apreciar! Podemos apreciar até um certo desconforto físico. Mas quando se sabe que é para o bem da sua vida, o que é mais importante? Vamos utilizar isso de forma adequada, não como um recuo frente à vida, mas pelo contrário. Que mensagem eu deixo da minha existência? E se preciso passar por um processo que ainda é difícil, como eu posso oferecer a minha experiência para que os médicos utilizem isso para melhorar esse processo, desenvolver outros métodos de cura menos agressivos, por exemplo? Eu me entrego para a vida. Não fujo dela.

O medo está presente no dia a dia, mas temos que enfrentá-lo de frente e ele vai embora. É isso?

Isso mesmo! Nada é fixo e permanente. Nem o medo é. Precisamos perceber todos esses estados. A felicidade, a atenção, tudo, senão ficamos limitados. “Eu tenho medo, não quero nem saber”. Não pode pensar assim. É bom saber o que acontece com a gente, quais são os caminhos da cura, os que vamos percorrer. Não se prenda apenas ao que é ruim. Porque é comum darmos mais importância para aquele momento desagradável. E aí nos esquecemos de todos os momentos bons.

Quando temos um pensamento positivo, o medo diminui?

Eu tenho certeza que sim, podemos transformar a realidade por meio dos nossos processos mentais. E, para nós, no zen-budismo o processo mental mais importante é a sabedoria. Ter uma percepção muito clara da realidade que se transforma. Ela não é fixa, nem permanente. Nós somos a trama da vida inter-relacionados a tudo e a todos.

Eu gosto muito do Carlos Drummond de Andrade. Ele tem um poema que diz: “Meus ombros suportam o mundo e ele não pesa mais pesado do que a mão de uma criança”. Essa dor, essa aflição, esse medo, é a mão de uma criancinha, que não é tão pesada assim. Mas é necessária. Quais foram as causas e condições que me deixaram nesse estado em que estou agora e o que eu posso fazer? Cada um de nós tem um curador em si. Mas ele não funciona sozinho. Precisa de outros elementos, quer sejam químicos, médicos, radiologistas, enfermeiros ou um abraço, um carinho.

Essa atitude é importante para que a família e os amigos deem suporte?

Sabe que, em alguns casos, o que acontece é quase o contrário. Às vezes, o próprio paciente é quem acaba consolando os familiares e amigos. Muitos pacientes me dizem que são eles que consolam e acalmam os parentes. Eles dizem que estão bem, estão se tratando, que vão melhorar. Eu tenho energia vital, estou fazendo as minhas coisas. Não é porque tenho um diagnóstico ruim que preciso viver com medo. Ninguém, ninguém sabe o que vai acontecer amanhã.

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Bom, eu sou profissional de meditação. Desde que a descobri, nunca encontrei nada que fosse melhor. Eu acredito que seja útil em todas as fases da vida. Aquilo que chega até nós, é uma oportunidade de treinamento e prática. As práticas meditativas nesse momento nos ajudam a ter respiração consciente, e isso vai reduzir a ansiedade e facilitar ao nosso corpo responder aos medicamentos e processos de cura. Eu não vou ser um obstáculo para isso. Vou facilitar que esse processo ocorra. Acredito que possa fazer muito bem, desde que essa meditação seja devidamente orientada, e fico contente em ver que muitos hospitais têm usado. A chave de ouro é a respiração consciente. No aqui, agora.

A senhora já falou isso muitas vezes, mas é importante que a pessoa se perceba bem, certo?

Sim! Dar-se o direito de sentir-se bem, de ser feliz, de brincar, de fazer o que gosta. É incrível, mas parece que quando estamos doentes é quando temos melhor noção de finitude. Porque é comum quando achamos que a vida é eterna, que está sempre tudo bem, nem irmos atrás daquilo que é mais precioso e sagrado, que é o nosso bem-estar, nosso prazer na existência. E esse prazer na existência não pode desaparecer.

Estar com um problema de saúde pode ser uma oportunidade de crescimento?

Acho que tudo o que nos acontece é uma oportunidade de autoconhecimento, é uma prática de vida. Qualquer tipo de doença, de acidente, qualquer encontro, boa notícia, tudo é! Quando nos lembramos de que o mal-estar passa, que o bem-estar passa, que a vida está passando, podemos apreciar cada momento dela. Com todas as dificuldades que possam estar envolvidas e saber: isso é vida.

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