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Multidisciplinaridade, todos ajudando um

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Última atualização em 3 de agosto de 2021

Os hospitais estão oferecendo aos pacientes o que eles chamam de multidisciplinaridade, ou seja, profissionais de várias áreas atendendo um paciente em um único local e isso está mudando toda a dinâmica do tratamento

Enfrentar um tratamento contra um câncer não é fácil. E, além de todos os efeitos no corpo, sejam causados pela doença ou pelos medicamentos, algo desgastante para o paciente é ter de procurar por diversos profissionais durante o tratamento, para, por exemplo, cuidar de sua pele (dermatologista), de seus dentes (dentista), de sua alimentação (nutricionista), de sua saúde emocional (psicólogo) e, claro, combater a doença em si (oncologista/hematologista).

Mas e se todos esses profissionais estivessem ao alcance do paciente no próprio hospital onde o tratamento for feito? Sim, isso existe, chama-se multidisciplinaridade, e está mudando a forma como pacientes de câncer são atendidos.

Evolução clínica

O Dr. Paulo Vidal Campregher, oncologista do Hospital Israelita Albert Einstein, explica como esse tipo de abordagem acontece. “Num atendimento multidisciplinar, cada paciente é atendido individualmente por uma equipe completa de profissionais preocupados com diferentes aspectos de seu tratamento, que se reúnem semanalmente para discutir qual a melhor conduta para o caso. Nessas reuniões, são discutidos os aspectos diagnósticos, terapêuticos, farmacológicos, nutricionais, emocionais e sociais de cada paciente, e as decisões são tomadas pelo grupo todo, após extensas discussões. Assim, o melhor tratamento é definido e as expectativas do paciente podem ser satisfeitas, contribuindo para uma evolução clínica satisfatória”.

Atendimento mais humano

É um trabalho complexo, que pode chegar a envolver mais de dez profissionais unidos em função de uma única pessoa. Mas os resultados são excelentes, principalmente para o paciente. “A abordagem multidisciplinar proporciona um melhor tratamento, um alinhamento entre os diversos profissionais, e em última instância, atinge seu principal objetivo. A humanização da abordagem ao paciente”, diz o

Dr. Rafael Kaliks, também oncologista no Einstein.

Essa humanização do atendimento vem acontecendo em razão de um novo tipo de medicina que há poucas décadas está sendo exercida. A que coloca o foco no paciente, e não na doença. “Se a medicina do século 20 era inteiramente baseada no diagnóstico e na proposta terapêutica, no século 21 sabemos que, além do diagnóstico e do tratamento (que continuam sendo de extrema importância), cada paciente é um ser humano complexo. Com condição socioeconômica única, valores culturais, religiosos e expectativas que sabidamente têm impacto na recuperação clínica. E por isso deve ser tratado em sua individualidade”, afirma o Dr. Paulo Vidal.

Cada caso é um casocâncer, tratamento humanizado

Individualidade que já é percebida não apenas em relação às pessoas, mas à própria doença. “Hoje sabemos que todo tumor é diferente do ponto de vista biológico, o que implica que cada paciente deve receber um tratamento específico, de acordo com os defeitos moleculares de seu tumor”, diz o Dr. Paulo, que é também especialista em biologia molecular. Sua equipe no Einstein conta com profissionais especializados no que é conhecido como oncologia molecular. Essa especialização “tem como objetivo avaliar os defeitos moleculares de cada tumor para oferecer tratamento personalizado para cada paciente”.

Mas e para os médicos, que antes atuavam praticamente sozinhos no atendimento aos pacientes, o trabalho dessa forma torna-se mais fácil?

Para o Dr. Paulo, sim. “No passado, o médico tinha de cuidar de todos os aspectos da saúde do paciente. Obviamente essa era uma tarefa ingrata, uma vez que ele é treinado, predominantemente, para estabelecer o diagnóstico e o plano terapêutico. Com a inclusão de profissionais habilitados para cuidar de outros aspectos da saúde, ele pode focar suas atenção no tratamento mais adequado para cada caso. Sem, é claro, descuidar da relação médico-paciente que é um dos pilares de todo tratamento bem-sucedido”.

Já o Dr. Rafael tem uma opinião diferente, mas que valoriza da mesma forma esse tipo de atendimento. “Não acho que necessariamente o trabalho é mais fácil. Diria até que pode ser mais difícil para o médico ter de alinhar opiniões por vezes diferentes com diversos profissionais e participar das reuniões in loco. Mas certamente essa interação acaba tirando do paciente o estresse adicional de ter de decidir entre opiniões e abordagens diferentes. E é o seu bem-estar o principal foco”.

O paciente no centro de tudo

Apesar de no Brasil o conceito de multidisciplinaridade ainda não estar tão difundido, o Dr. Paulo afirma que esse tipo de atendimento representa um avanço sem precedentes no cuidado do paciente com câncer. “Certamente ainda há muito a ser feito para que todos os brasileiros possam ser beneficiados com essa forma de tratamento.

Sabemos que sua implantação é trabalhosa, exige paciência e perseverança. Mas o êxito profissional é uma meta a ser buscada. O objetivo final deve ser o tratamento de excelência para todo paciente diagnosticado com câncer em nosso país”.

O Dr. Rafael Kaliks, que participou juntamente com o Dr. Paulo de um painel com o tema no Congresso Todos Juntos Contra o Câncer, concorda, e enfatiza a importância de não deixar o paciente sozinho no enfrentamento da doença. “O diagnóstico do câncer traz consigo a necessidade de abordagem de diversos aspectos,. Não só médicos, mas sociais, financeiros, familiares, entre outros.

Ninguém consegue cuidar de tudo sozinho. Nesse contexto, olhar para o paciente com câncer sob o prisma da multidisciplinaridade e multiprofissionalidade é a melhor forma de minimizar o sofrimento como um todo. Não só combatendo a doença, mas olhando a pessoa”.

Como sugestão para que outros centros de tratamentos adequem seu atendimento ao conceito de multidisciplinaridade, o Dr. Rafael deixa um conselho valioso: “É preciso ter em mente que o paciente é o centro de tudo. O sistema tem de ser montado a partir do paciente, e não o paciente se adaptar a um sistema idealizado por uma ótica burocrática.

Se o médico ou o agente público que está tentando montar o sistema de atendimento se colocar no lugar do paciente e pensar o que seria melhor para este, certamente terá boas chances de acertar”.


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