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‘O momento é de empoderamento do paciente’, dizem especialistas em saúde

 

Rosane Queiroz

Representantes do setor público e privado, da academias e usuários do sistema participaram da 11ª edição do Diálogos Transformadores

SÃO PAULO Investir em treinamento multidisciplinar, criar incentivos para os médicos e aproveitar melhor os recursos da tecnologia. Estes são alguns caminhos apontados no Diálogo Transformadores sobre “Como melhor atender o paciente: a expectativa e a experiência de quem tem câncer e outras doenças graves”.

O debate multimídia, mediado pela jornalista Cláudia Collucci, ocorreu poucas horas antes de o presidente Donald Trump anunciar, na noite da quarta-feira (11), que fecharia fronteiras dos Estados Unidos da América para 26 países da Europa, e a crise do Coronavírus se intensificaria no Brasil.

O evento realizado pela parceria entre a Folha e a Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia (Abrale), com apoio da Novartis, aconteceu no último 11 de março, no Teatro Folha.

Durante cerca de duas horas, profissionais de saúde do setor privado e público compartilharam estratégias de como fazer do paciente o protagonista do seu tratamento. “O momento é de empoderamento do paciente”, afirmou Merula Steagall, presidente da Abrale, na abertura do evento.

Ela, que foi diagnosticada aos 3 anos com talassemia, um tipo de anemia crônica, compartilhou sua história pessoal e falou da importância de abordar o tema.

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“No atual cenário de saúde, é urgente unir colaboradores e colocar o paciente no centro da discussão, para que o bom atendimento seja regra, e não exceção. Precisamos discutir com a sociedade o papel de cada um enquanto cidadão e usuário do sistema de saúde”, disse a vencedora do Prêmio Empreendedor Social 2013.

“O comportamento do paciente mudou, o que faz a diferença hoje é o que importa para ele no tratamento”, concordou Ana Malik, médica coordenadora do FGV Saúde, Centro de Estudos em Planejamento e Gestão da Saúde da Fundação Getúlio Vargas (FGV), em São Paulo.

A professora, contudo, rejeita o termo “humanização”. “Todo doente é uma pessoa, estamos lidando de seres humanos para seres humanos. ” Malik mencionou como case de sucesso a campanha global “What Matters to You?, criada em 2012, pelos médicos norte-americanos Michael Barry e Susan Edgman-Levitan, professores da Harvard Medical School. A partir de um jogo de palavras em inglês, eles introduziram o conceito de perguntar “What Matters to You?” (O que importa para você?), no lugar de “What is the Matter?” (Qual é o problema?), no contexto do “atendimento centrado no paciente”.

MUDANÇA DE MINDSET​

A psicóloga Ana Merzel Kernkraut, coordenadora do programa de experiência do paciente do Hospital Israelita Albert Einstein, disse que o conceito da campanha vem sendo aplicado no hospital. “Tornar o paciente ativo é uma mudança de mindset em todo o sistema de saúde”, afirmou Merzel, referindo-se à uma nova mentalidade a ser construída.

A psicóloga ressaltou que a experiência do paciente é uma jornada complexa e abrangente. “Ele pode ter um desfecho positivo no tratamento e uma experiência negativa no atendimento, e vice-versa”, diz. Ela acredita que se trata de uma jornada que envolve um treinamento multidisciplinar. “Para promover um ambiente de cura, temos de romper silos, integrar os departamentos, criar canais de escuta e estudá-los. Não adianta ter dados e não analisar”, diz.

O administrador Thomaz Srougi, criador da startup dr.consulta, que tem como público-alvo os 100 milhões de “sem-teto” da saúde, deu a medida de quanto a tecnologia e os incentivos podem colaborar.

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​“A análise dos dados permite que você desenhe a jornada do paciente alinhe os incentivos aos profissionais”, disse. Como exemplo, o finalista do Prêmio Empreendedor Social 2019 contou que uma pesquisa interna apontou que boa parte dos usuários não se sente bem atendido “se o médico não explica bem medicação”.

A partir do descontentamento detectado, foi solicitado que os médicos se demorassem mais nessa questão.
Em um primeiro momento, apenas 40% da equipe aderiu. Mas quando a empresa colocou um bônus financeiro como incentivo, a taxa de adesão subiu para 90%. Hoje, o NPS, sigla para Net Promoter Score, sistema que mede a satisfação dos clientes, no dr.consulta, é de 85%. “É fundamental alinhar com os médicos cada demanda”, diz Thomaz.

O LIMITE DA PARTICIPAÇÃO

“As pessoas associam experiência a ter um chef de cuisine”, pontuou Malik, diante da questão colocada pela mediadora, sobre como não confundir o tema com mera manobra de marketing.

“Falamos aqui de uma experiência que é uma jornada inteira, de idas e vindas. Cada consulta é um encontro –e um encontro pesado. A experiência do paciente é um processo, não é um momento”, disse a professora.

Como estratégia, Malik acredita que é preciso mais investimento na formação dos profissionais de saúde. “O conhecimento científico muda todos os dias, mas o atendimento pode ser ensinado”.

Saber impor limites também conta. “Atender bem não é fazer tudo o que o paciente quer. Paciente não é santo, paciente também mente. Até os pacientes do dr. House”, disse, referindo-se ao protagonista da série de TV, arrancando risadas da platéia.

CÂNCER NÃO ESPERA​

O representante da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, Luiz Henrique Gebrim, diretor do Hospital Pérola Byington, concorda que uma das saídas é formar profissionais mais conscientes. “O mais importante é o processo educacional, capacitar a área primária para ser mais proativa e resolutiva. ”

Mas ressaltou que o grande desafio segue sendo a falta de recursos. “O problema econômico é mundial. Precisamos estabelecer uma rede para fazer melhor com o que já temos. Não
adianta iluminar o prédio de rosa no mês da prevenção ao câncer de mama. O prédio rosa vai atender a paciente?”, disse o representante do governo.

Como exemplo positivo, ele contou sobre o programa CARE (Centro de Alta Resolutividade) em que a paciente realiza e retira os resultados dos exames em apenas um dia. “Câncer não espera. Ao agilizar o diagnóstico, diminuímos a angústia.” No dia a dia do Pérola Byington, Gebrim falou a importância de parcerias com ONGs, para ações como as que acontecem no “dia da alta”, em que as pacientes têm um instituto de beleza à disposição, para maquiagem e manicure.

PACIENTE PARTICIPATIVA

A plateia ouviu ainda o depoimento de Fernanda Foz, paciente de mielofibrose (câncer no sangue) há uma década, prestes a receber um transplante de medula óssea pelo SUS.

Com acesso a plano de saúde, ela disse ser parceira no tratamento. “Sou agradecida porque a doença me fez crescer, me ensinou a me impor, para nãos ser vista como coitada. Sou atuante e faço um elo de ligação entre os médicos.” Aos pacientes, Fernanda deu um recado: “Não seja passivo. É essencial buscar informação, se autoconhecer, procurar ONGs, estabelecer redes de apoio. Tem muita gente boa na área de oncologia”.

Nas considerações finais, Thomaz Srougi reforçou que “atender bem as pessoas não é um objetivo, mas um valor que deve permear todas as decisões”.

“Houve um momento em que me vi dividido entre espalhar centros médicos menores pela cidade ou abrir quatro centros grandões. Decidi pela primeira opção, que que dá mais trabalho, mas vai alcançar mais pessoas”, disse.

O dr.consulta tem uma rede de 55 unidades no estado de São Paulo, 48 delas na capital. Os participantes, por fim, concordaram que o debate é fundamental para evoluir nessas questões. “Precisamos de assimetria na informação.

Foi interessante ver que, em diversos setores da cadeia de saúde, estamos alinhados, buscando novos caminhos”, avaliou Thomaz. “Foi excelente reunir múltiplos atores, do setor privado, público, da educação, e ter esse conteúdo compartilhado”, finalizou a presidente da Abrale.

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Fonte: Folha.uol

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