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É preciso refletir sobre cancerofobia, diz coordenador do Sírio-Libanês

O aumento do acesso à informação genética permite que hoje os testes capazes de detectar um câncer precocemente sejam feitos com maior precisão e velocidade. No entanto, o uso indiscriminado desses exames, sem acompanhamento médico adequado e sem levar à prevenção, só levará a preocupação e angústia.

Essa foi a conclusão dos especialistas que participaram da primeira mesa de debates do Fórum A Jornada do Paciente com Câncer, evento que discute como os pacientes enfrentam o tratamento da doença no país. O seminário ocorre nesta segunda (24) e terça (25), no teatro Unibes, em São Paulo. O evento é realizado pela Folha com o patrocínio do laboratório Bristol-Myers Squibb.

O efeito Angelina Jolie –a atriz americana retirou as mamas em 2013 após passar por um exame que detectou risco de câncer– fez crescer o interesse da população pelo tema, mas, segundo Dirce Carraro, cientista e coordenadora do Laboratório de Genômica e Biologia Molecular e do Laboratório de Diagnóstico Genômico do A.C.Camargo Cancer Center, aumentou também a importância de discutir a qualidade desses testes.

“Uma informação erroneamente interpretada pode levar a uma decisão clínica não adequada para o paciente”, afirmou.

“Se dissermos para uma pessoa que ela tem 80% de chances de ter um câncer fatal, que ainda não existe, como ela vai viver?”, questionou Bernardo Garicochea, coordenador de ensino e pesquisa do Centro de Oncologia do Hospital Sírio-Libanês.

Para ele, o sistema de saúde, sobrecarregado, precisa repensar o gasto em testes, com resultados negativos, que não são revertidos em prevenção.

“Os exames devem ser destinados preferencialmente àqueles que tenham histórico familiar da doença, com diferentes casos de um tipo de câncer em parentes de primeiro grau”, acrescentou Oswaldo Keith Okamoto, professor associado do departamento de Genética e Biologia Evolutiva do Instituto de Biociências da USP e pesquisador do Centro de Pesquisas sobre o Genoma Humano e Células-tronco da USP.

POLÍTICAS PÚBLICAS

A prevenção, disse Garicochea, depende muito de políticas públicas para preparar os profissionais de saúde a orientar sobre exposição a fatores de risco.

“Indicar o uso de protetor solar para pessoas com pele muito clara é uma medida muito simples e que pode ajudar a diminuir a incidência da doença”, afirmou.

Garicochea também criticou os exageros na prevenção, que incluem alimentos e chás milagrosos que não passam por validação científica.

“Temos que refletir se não estamos criando uma cultura de cancerofobia, que quase enlouquece as pessoas dentro de uma doutrinação anti-câncer”, afirmou.

ABERTURA

Durante a abertura do evento, Sílvia Brandalise, médica e presidente do Centro Infantil Boldrini, de Campinas, lembrou que, embora a taxa de cura do câncer em crianças tenha aumentado em pelo menos 30% nos últimos 40 anos, o país precisa ainda avançar em pesquisa.

Atualmente, segundo ela, menos de 1% dos casos da doença em crianças são registrados em estudos clínicos.

“Os estudos clínicos devem ser melhor regulamentados pelas políticas públicas e ter as barreiras reduzidas”, afirmou Brandalise.

“É preciso juntar universidades e centros de pesquisa com a rede de saúde para melhorar o diagnóstico e o tratamento”, concluiu.

 

Fonte: Site | Folha

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