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Assistência a mães solo com câncer deve considerar questões sociais, dizem especialistas

Vulnerabilidade e acesso insuficiente ao SUS atrasam diagnóstico, dizem participantes de mesa do Congresso Todos Juntos Contra o Câncer

Mais de 11 milhões de mulheres são mães solo no Brasil, sendo que 7,8 milhões (61%) são negras e, entre elas, 63% estão abaixo da linha da pobreza, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Nesse contexto, as chances de diagnóstico tardio de câncer aumentam pela falta de acesso a consultas e exames no SUS (Sistema Único de Saúde), e o tratamento, mais complexo, exige que a equipe se atente também para questões sociais.

Com a mediação de Joyce Ribeiro, jornalista e apresentadora do Jornal da Tarde, da TV Cultura, especialistas e pacientes discutiram os desafios do tratamento oncológico para mães solo durante painel realizado nesta quarta-feira (28), segundo dia do 9º Congresso Todos Juntos Contra o Câncer, promovido pela Abrale (Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia).

A vulnerabilidade social está diretamente ligada à origem das doenças, afirma Ana Amélia Almeida Viana, oncologista especializada em tumores femininos do Hospital das Clínicas da UFBA (Universidade Federal da Bahia).

No caso das mães solo, exemplifica, nem sempre há condições de praticar atividades físicas e ter uma boa alimentação por sobrecarga de tarefas, falta de tempo para cuidar de si mesmas e condições financeiras insuficientes. Consequentemente, essas mulheres ficam mais expostas aos fatores de risco para o câncer, como sedentarismo, diabetes e obesidade.

Outro problema é a falta de acesso das mulheres negras e periféricas, principais usuárias do SUS, a consultas e exames em tempo hábil.

Assim, elas também ficam sujeitas ao agravamento das doenças, explica Denize Ornelas, médica de família e comunidade e coordenadora do grupo de trabalho de saúde da população negra da SBMFC (Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade).

Quando chega aos serviços de saúde, esse grupo não tem suas queixas levadas a sério por estereótipos de que mulheres negras sentem menos dor, diz ela.

As dores e o sofrimento físico precisam ser vistos como consequência de problemas sociais como fome e violência, afirma Ornelas. Para terem uma abordagem interseccional no atendimento de mães solo com câncer, os profissionais de saúde devem conhecer o impacto das desigualdades provocadas pelo racismo e pela vulnerabilidade social.

Para Melissa Medeiros, 51, fundadora e presidente da ACBG Brasil (Associação Brasileira de Câncer de Cabeça e Pescoço) e sobrevivente de câncer de laringe, o acolhimento de mães solo com a doença deve considerar o contexto.

Por serem arrimo de família, elas não podem parar de trabalhar para se dedicar apenas ao tratamento. Um atendimento humanizado deve incluir, diz, questões como deslocamento para que as pacientes não abandonem o tratamento.

A estudante de enfermagem Itaciara Monteiro, 36, paciente de leucemia mieloide crônica, conhece o impacto do câncer em famílias sustentadas por mães solo por perspectivas diversas. Como filha, ainda na infância, viu a mãe deixar o emprego para acompanhá-la de Manaus a São Paulo em busca de tratamento -o pai não viajou e ficou responsável por cuidar do filho caçula, mas se divorciou pouco tempo depois.

A separação levou à queda da renda, e Itaciara precisou trabalhar desde a adolescência para ajudar no sustento de casa e no custeio de medicações. Hoje, como mãe solo de um menino de 13 anos, ela, que trabalha na área de marketing, é a principal responsável pelos cuidados consigo e com o filho.

A contadora Cristiana da Silva Gomes, 44, diagnosticada em 2018 com câncer de mama, fez cirurgias, quimioterapia, radioterapia e, em todos esses momentos, contou apenas com os cuidados do filho, hoje com 18 anos. Para ela, a jornada da paciente oncológica é dificultada pelas barreiras de acesso, no SUS, a exames como a mamografia, fundamental para identificar precocemente os tumores na mama.

Faltam também estudos com recorte racial para que o câncer seja rastreado de forma eficaz entre as mulheres negras, afirmam as especialistas.

Viana, que também é membro da SBOC (Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica) em Salvador (BA), afirma que, embora a população negra seja menor nos Estados Unidos do que no Brasil, os norte-americanos produzem mais pesquisas sobre adoecimento com recorte racial, inclusive para compreender sua relação com o câncer.

Isso permite verificar a incidência da doença com mais profundidade, explica. Durante sua fala, a oncologista mostrou que, nos EUA, mulheres negras estão mais expostas a agentes infecciosos como os vírus HPV e HIV, além da bactéria H. pylori, gatilhos para tumores, respectivamente, no colo do útero e no estômago.

No Brasil, esse tipo de informação ajudaria pacientes e médicos a atentarem para sintomas e melhoraria desfechos clínicos. Um dos caminhos para que isso ocorra, afirma Ornelas, é incentivar que estudantes e pesquisadores desenvolvam estudos sobre saúde com recorte de raça ou cor.

 

Fonte: Folha de S. Paulo

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