Reflexões sobre a espiritualidade prática
Maria Cristina Monteiro de Barros
Certa vez eu li que ser espiritualizado era uma construção baseada fortemente em uma tendência geneticamente herdada, que nos faz encontrar conexões entre eventos aparentemente desconexos, perceber sinais invisíveis aos olhos comuns e produzir significados de vida. De pronto me identifiquei com este gene do Sagrado, encontrando uma origem fidedigna para minha sensibilidade, um tanto mal compreendida e socialmente desajustada. Finalmente ganhava um reconhecimento de seu valor, um selo de pertencimento à espécie dos humanos mentalmente saudáveis, capazes de usarem a razão e a intuição na mesma medida. Aquele mesmo texto dizia, no entanto, que este gene, se pouco utilizado, tal como um músculo sem exercício, pode atrofiar. E então me perguntei como poderia torná-lo forte e garantir minha boa forma espiritual? Mais ainda: o que poderia arrefecer em mim o crítico juiz e manter acordado o poeta, o artista de aguçadas percepções? Estas questões, sempre muito pessoais, colocaram-me em busca de uma vida mais autêntica e menos banal. Penso porém que há algumas pistas na trilha do desabrochar espiritual que criam reflexos práticos na vida do todo e qualquer buscador. Passamos agora a refletir sobre algumas delas.
“O momento presente é o mestre perfeito e ele está sempre conosco”*.O momento que vivo agora é o único momento dotado de realidade e portanto, de vida. Ele contém a infinidade e a eternidade em si mesmo; ele contém tudo aquilo de que eu preciso. Dizia-me um paciente em tratamento de uma leucemia: “esta doença me ajudou a ver que cada minuto de minha vida é precioso, me ajudou a valorizar os detalhes...” Quando a vida é ameaçada por uma doença grave como o câncer, ela pode transformar-se numa concha pronta para ser aberta e desvelar em seu interior uma linda pérola. Cada segundo, cada acontecimento, seja ele imaginário ou palpável, doce ou amargo, guarda uma pérola a se revelar. Como este paciente fez, com o estímulo da doença e do difícil tratamento ao qual se submeteu, encontrar esta pérola exige um certo esforço e, sem dúvida, uma enorme vontade de viver. Para aqueles mais céticos sobre sua existência ou mais desesperançados sobre o valor da vida em si, salva-os a criança. A criança pequena vive o momento presente – dada a ela uma terra fértil, ela não se debruçará sobre o passado ou o futuro, porque, para ela, eles simplesmente não existem. Conviver com crianças pode ressuscitar em nós a crença nas pérolas colocadas ao nosso dispor sob cada experiência de vida, prazerosa ou não. E a boa nova é que cada um tem uma criança dentro de si, pronta para simplesmente brincar, com leveza e confiança.
A segunda pista a nos guiar no desabrochar espiritual é a inteireza. Uma vez ouvi um relato de um paciente a respeito de seu oncologista. Ele dizia mais ou menos assim: “ a gente percebe quando é bem cuidado, a gente se sente mais esperançoso, mais seguro. Não era só pelo que ele sabia de medicina...em todos os momentos ele olhava nos olhos da gente, ele tocava na nossa mão, ele ficava do nosso lado....ele dizia que a gente não estava sozinho, isto me enchia de ânimo!” A inteireza deste profissional é em si uma postura fundamental para garantir a percepção de significados para a nossa existência. Ela nos direciona rumo ao melhor de nós mesmos, rumo a possíveis curas. Somos seres que transitam todo o tempo por entre as dimensões dos sentidos físicos, dos pensamentos, dos sentimentos e das intuições. Separadas, estas instâncias se tornam instrumentos de auxílio apenas parcial ou até mesmo prejudicial à nossa caminhada. Se em nós predomina o intelecto e as emoções, corremos o risco de nos paralisarmos diante dos desafios. Se a dimensão física-sensorial produz ações combinando-se apenas com a razão, podemos nos tornar cruéis; se a estas ações soma-se a emoção, tornamo-nos propensos a cometer injustiças! São inúmeras as repercussões desastrosas que acontecem quando “funcionamos” parcialmente. A inteireza relaciona-se com o estar presente, integralmente, de forma plena e atenta, neste exato momento. Estar inteiro significa utilizar os sentidos, o intelecto, as emoções e a dimensão intuitiva ao fazer compras no supermercado, ao relacionar-se com a namorada, ao enfrentar uma doença ou cuidar de um paciente. Quando estas dimensões, que são interdependentes, harmonizam-se em nós, tornamo-nos uma Presença.
Finalmente, a última reflexão que gostaria de compartilhar aqui diz respeito ao fenômeno da aceitação. A pista que podemos seguir para chegar a aceitar as mazelas e o sofrimento irremediavelmente presentes no viver, é “transformar em caminho tudo aquilo que encontramos pela frente.”**A doença pode ser um caminho - difícil, é verdade – que produz movimento, retirando-nos da estagnação que o conforto pode promover em nossas almas. Colocar-se em movimento e apreciar cada passo dado parece ser a própria pérola que queremos buscar; a luz do fim do túnel, que no final das contas, está presente em toda sua extensão, em meio à escuridão da travessia. A intenção maior é a de chegarmos aqui mesmo, neste espaço e momento presentes, de forma inteira, com o melhor que podemos ser e contemplarmos então a beleza que esta Presença pode espelhar. Nas palavras de Jean-Yves Leloup***:
“Em algum lugar”... é aqui, a terra, o tapete sob nossos pés.
Algum lugar não é outro lugar. É nossa parte da existência, a forma qualquer e, no entanto, única que a vida toma em nós.
O primeiro passo da dança, o grande passo...é chegar aqui!
Aqui, algum lugar onde a felicidade de existir nos aguarda.
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