O olhar para além da doença física.
Maria Teresa Veit
Nos tempos mais antigos, dispondo de pouquíssimos recursos objetivos para estabelecerem diagnósticos que permitissem o melhor tratamento a seus pacientes, os médicos recorriam a tudo aquilo que pudessem levantar a respeito da pessoa que estava doente. Preocupavam-se com seus humores e amores, ouviam atentamente relatos e depoimentos de todas as ordens, observavam tudo que se passava no ambiente, detectavam o ritmo dos batimentos cardíacos, tentavam identificar odores inusitados, aferiam alterações de temperatura corporal... Depois, baseados na síntese organizada de todas essas informações, proferiam diagnósticos, estabeleciam os planos de tratamento.
O Doutor sabia mais do que muitos familiares: conhecia segredos, acompanhava nascimentos, batizados e casamentos e, não raro, fazia nascer e batizava os filhos e netos de seus primeiros pacientes.
Era próximo em todos os sentidos. Em meus registros de memória ainda está marcada a sensação de proximidade física do velho pediatra que, ao me acudir nas crises de amidalite infantil, pousava sua cabeça em minhas costas para a ausculta pulmonar e me deixava um rastro de cócegas, com seus grisalhos cabelos bem curtos.
Os tempos foram trazendo novos e preciosos recursos ao estabelecimento de diagnósticos mais precisos e certeiros. À invenção do estetoscópio, no início do século XIX, seguiram-se as de numerosos instrumentos imagenológicos e laboratoriais que iluminaram pontos obscuros da investigação dos males do corpo. Com isso, reduziu-se o contato pessoal, instituíram-se os intermediários auxiliares.
Lançavam-se novas luzes e a estas devemos muito do progresso atual da medicina, indiscutivelmente muito mais bem aparelhada hoje em dia para o tratamento das moléstias que acometem o ser humano.
No entanto, aquilo que lança luzes também produz sombras. Sombras que podem guardar e ocultar informações essenciais às propostas de tratamento e assistência à saúde, como as que se referem às emoções e à espiritualidade.
Emoções acompanham, de modo indissociável, cada conhecimento, cada etapa da vida, quer gloriosa e feliz, quer se constitua em vicissitude ou doença. Estão de tal forma a estas correlacionadas, que por vezes se confundem, a ponto de não ser mais possível discriminar o que é causa e o que é conseqüência.
Espiritualidade, por sua vez, é o processo de atribuição de significado às vivências, transformando-as em experiências. Pode basear-se em referenciais religiosos, morais ou filosóficos ou ainda em posturas individuais.
Como ignorá-las? Como deixar que permaneçam nas sombras?
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