Afinal, medo de quê?
Maria Teresa Veit
Temos falado sobre os sentimentos que acompanham o diagnóstico, os tratamentos e os prognósticos das doenças onco-hematológicas.
Não exclusivos das doenças do sangue e nem sequer do câncer, nascem da percepção aguçada pelos momentos de fragilidade.
A fragilidade do ser humano sempre existiu, mas de modo geral não nos detemos a refletir sobre isso. Só quando nos deparamos com uma situação de limite os temores guardados e adormecidos despertam e, embora não nasçam nesse momento, eclodem por conta do estímulo forte e ameaçador.
·O medo tem base na realidade.
Existem, como já comentamos, os mitos e as inverdades que povoam o cenário das doenças.
Entretanto, há condições objetivas difíceis que cercam tratamentos e cuidados ligados à situação de doença.
Tomemos algumas delas.
Medo da morte. Imediato, como o despertar de uma consciência adormecida e de um saber que sempre esteve lá, mas que optamos por ignorar, coloca-nos diante da realidade de nossa finitude, da angústia de aniquilamento, da perspectiva de deixarmos de existir.
Diferentes referenciais religiosos podem interferir nesse processo, dado que oferecem explicações e perspectivas que amenizam a idéia do fim inexorável.
Porém, independentemente do curso da doença e do tratamento, ou até mesmo na ocorrência de uma hipótese diagnóstica não confirmada, o medo da morte já é real, já foi experienciado, e essa vivência é irreversível. Estamos falando da “grande morte”, daquela que encerra a vida conforme a entendemos em seu estágio corporal.
Entretanto, há todas as demais modalidades de morte: da independência, da dignidade, do auto-respeito e de tantas outras que se traduzem nos medos que citamos a seguir.
Medo da limitação e da dependência.
Doenças e tratamentos reduzem o ganho de autonomia que acompanha o crescimento natural do indivíduo e, por outro lado, configuram-se em aceleradores da perda da autonomia inerente ao avanço da idade.
Em pleno desabrochar das habilidades de crianças e adolescentes, por exemplo, a vivência de um tratamento prolongado atua como fator de retardo às conquistas almejadas e em andamento.
Adultos jovens e independentes vêm-se subitamente dependentes de apoio das mais diversas naturezas, até para rotinas básicas de auto-cuidado.
Medo da perda de “status”.
Outro “subproduto” dessa realidade é a mudança de posicionamento social que se segue às limitações naturais ocasionadas pelos cuidados intensos que a situação de doença requer.
Reduzida a autonomia, instalados os processos de maior dependência, lugares de mando e autoridade são abalados: pais-cuidadores e provedores passam à posição de alvos de cuidado com novas demandas materiais; grandes executivos cedem suas posições de mando a subalternos menos preparados.
Instala-se a tendência de inversão de rumos e papéis de mando X subordinação, de cuidador X necessitado de cuidado.
Medo da desconfiguração corporal.
O corpo conhecido e familiar passa por transformações – temporárias ou definitivas – que o tornam por vezes um desconhecido, algo com quem teremos de estabelecer um novo relacionamento que, em alguns casos, significa uma vivência para a qual não nos sentimos preparados.
Medo de sobrecarregar o outro.
Indiscutivelmente, a necessidade de cuidado e apoio representa redistribuição das próprias atribuições que, de modo geral, serão destinadas a pessoas do âmbito familiar e afetivo.
Estas, diante das novas tarefas, precisarão empreender ajustes importantes em sua rotina diária, o que resulta em cansaço, estresse e desgaste adicionais.
Medo do abandono.
Diante das novas variáveis, o pensamento caminha rapidamente para as consequencias últimas dos desdobramentos da cada uma das situações que mencionamos e, numa síntese assustadora, vem a conclusão aterradora: dependente, com seu status reduzido e imagem corporal modificada, motivo de sobrecarga e preocupação para os que ama, conclusão: o abandono é seu destino.
Medo do sofrimento.
São frequentes as declarações “ da morte nem tenho tanto medo, o sofrimento que vem à frente, este sim me apavora”.
Assim são sintetizados todos os medos, todas as perdas.
· Mas há respostas para essa realidade.
Como agir, então, diante de sentimentos reais, causadores de intenso sofrimento?
Respostas efetivas devem basear-se em dois pilares: o do acolhimento e o do reasseguramento.
Admitindo que a situação é, de fato, difícil, que não provém de construções fantásticas e infundadas, estamos acolhendo e valorizando os sentimentos de quem sofre, oferecendo-lhe a escuta compreensiva e solidária.
Por outro lado, assegurando nossa disposição de fazer parte do processo, de contribuir para a redução do sofrimento e do desconforto, atuamos diante do grande temor do abandono e de sofrimento maiores, como companheiros de jornada daqueles que nos são caros.
Lembramos as palavras de Cecile Saunders: “ o sofrimento só é insuportável quando vivido em solidão”.
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