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Dimensão Espiritual da Saúde
Maria Pia Brito de Macedo

A visão dos estados de saúde e enfermidade vem-se modificando através do tempo. Tido, inicialmente, como “um corpo, regulado por leis mecânicas”, o ser humano passa, mais tarde, a ser considerado composição de “corpo e mente”, embora como partes separadas e independentes entre si. Distúrbios da saúde do corpo seriam corrigidos pelo conserto da máquina; os da mente, pelos recursos aplicados ao racional e, mais tarde, às emoções.

Acrescenta-se, agora, à complexidade do ser humano, a “dimensão espiritual”: mais um aspecto a levar em conta, quando falamos em saúde ou doença.

Mas, o que vem a ser a “dimensão espiritual” do homem ?

As diferentes filosofias religiosas falam de espírito, de alma, ou, sob outras designações, de algo que ultrapassa a vida do corpo – não apenas em prolongamento do tempo da vida, como também um sentido para a vida.

Ao admitir a dimensão espiritual, o homem atribui significado às suas vivências, por mais difíceis que se apresentem. Passa a perceber a dinâmica do espírito – não estático, porém chamado a trilhar caminhos que levam à meta proposta, desde a sua criação: a perfeição, considerada como adesão íntima – não formal – à lei divina. Percebe-se não passivo, mas participante de seu processo de desenvolvimento.

Desenvolver-se é crescer espiritualmente, conforme as relações que mantém no mundo, com os fenômenos da natureza, com os outros seres humanos, com o próprio corpo.

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O corpo é o instrumento de contato do espírito com o mundo em que está inserido. Oferece informações de quadros, de sons, de toques, que o espírito decodifica em emoções: sentido do belo, de harmonia, de prazer, na riqueza das variações, para mais e para menos.

Quando o corpo adoece, o espírito se ressente: as impressões se alteram e o próprio equilíbrio espiritual fica abalado. É difícil conviver com o instrumento prejudicado.

Difícil, mas não impossível. O espírito pode encontrar forças para reagir: para vencer o medo natural, que acompanha as primeiras notícias da doença, para mobilizar todas as possibilidades de ação de que dispõe o corpo e para buscar recursos em planos superiores aos quais tem acesso, participando ativamente do processo de recuperação da saúde. E o corpo, embora fragilizado, responde à luta do espírito.

Ao mesmo tempo, o desafio da luta beneficia o espírito, na sua tarefa de crescer: um processo de mão dupla, com vantagem para ambos: corpo e espírito..

Às vezes, embora com o corpo saudável, o espírito pode adoecer: irritação, desânimo, revolta, tédio... Estas manifestações refletem-se no corpo. Instalam-se então processos de somatização das emoções e dos estados de alma.

Ambas as situações - espírito sadio/corpo doente ou espírito doente/corpo sadio -representam desafios educativos. Descobrir o segredo de lidar com os desafios da saúde pode não eliminar as dores provocadas pela doença, mas atribuir-lhes um significado reduz o sofrimento causado pelas dores.

Perceber a rede de interações, ouvindo o recado dos desafios, trabalhando recursos próprios, utilizando os que são postos à disposição – recursos da ciência e da espiritualidade - contribui para o restabelecimento do equilíbrio abalado, quer a doença tenha partido do corpo, quer do espírito. Entendidas, as partes entram em acordo e tudo o que for possível, em termos de saúde, será alcançado.

Não há receitas nem milagres. Nem o simples e superficial “pensar positivo” nem poções milagrosas resolvem a complexidade dos processos. Mais: doenças não são meios de que se vale o Criador para castigar as desarmonias do espírito, mas, apenas, ocorrências naturais da vida humana.

Perante a doença, de qualquer natureza, somos convidados à participação ativa, cuidando do espírito, cuidando do corpo, “assumindo o trabalho de viver”.

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