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Cancerofobia: o imaginário do câncer.
Maria Teresa Veit

O medo é uma proteção natural do ser humano, para que se mantenha alerta e, na medida do possível, previna-se de situações perigosas. Devidamente informados, todos nós atravessamos ruas com cuidado a fim de não sermos atropelados, protegemos as mãos e o corpo ao manejarmos um objeto quente, para evitarmos queimaduras graves e dolorosas, fazemos nossos controles médicos de rotina para tratarmos em tempo qualquer doença incipiente.

Reconhecemos os perigos porque somos informados a respeito deles. Prevenimo-nos porque tememos suas conseqüências. Portanto, o medo fundamentado e proporcional ao risco envolvido é saudável e conduz a atitudes de preservação da saúde, do bem-estar e da vida.

Por outro lado, o medo tem um “custo” para o organismo: cria ansiedade e desencadeia uma série de alterações fisiológicas, nem sempre positivas ou agradáveis, como transpiração excessiva, aceleração dos batimentos cardíacos, paralisação de ações e outros. Muitos de nós já experimentamos essas respostas, quando tomados por um medo extremamente intenso. Aí estamos falando aversões irreprimíveis que despertam horror. Dentre as origens desse sentimento tão forte estão a desinformação ou a informação insuficiente, ambas levando a uma compreensão errônea do risco.

Isso também acontece com o câncer. Baseado em noções pouco exatas, nosso mundo mental constrói um cenário aterrador que, alimentado pela imaginação, desperta em nós o medo patológico, aquele que nos distancia da saúde. Isso acontece porque, aterrorizados e paralisados, passamos a agir de forma a corrermos mais riscos ao invés de protegermo-nos deles. O terror é tão grande que nos afasta, por exemplo, dos exames rotineiros e das posturas preventivas, o que resulta em aumento do perigo. Em suma, sem querer, ficamos mais expostos justamente àquilo que gostaríamos de evitar.

A informação é o melhor remédio. Desde que confiável e clara, devidamente atualizada, baseada em fundamentos sólidos e científicos. Se tivermos conhecimento suficiente a respeito do câncer, sobrará pouco espaço a ser preenchido por nossa imaginação. E os fatos atuais estão aí, assegurando cada vez meios mais eficientes de diagnósticos precoces que levam a tratamentos com muito maiores probabilidades de cura. Troca-se o medo paralisante por atitude, determinação e proatividade.

Nem sempre é fácil despojarmo-nos de lendas e mitos arraigados em nossa cultura: “câncer equivale a uma sentença de morte”, “câncer é igual a sofrimento”, “câncer não tem cura”, “câncer é castigo”... Tudo isso já foi verdade em tempos passados e tradições são difíceis de mudar. Para não cairmos na armadilha de deixarmo-nos conduzir por inverdades que põem em risco nossa saúde física, emocional e espiritual, é preciso que nos disponhamo-nos à revisão do conhecimento que tomamos por referência.

A busca de conhecimento torna-se, portanto, uma obrigação, hoje acompanhada pela necessidade de avaliação crítica das suas fontes. Em tempos de Internet e de circulação fácil de volumes imensos de notícias e novidades, como separar o joio do trigo? A ABRALE, assim como outras associações sérias, tem se empenhado em garantir informação de qualidade.

Convidamos a todos a um esforço de reconstrução de seu sistema de crenças, que levem ao afastamento de terrores infundados e à adesão de hábitos e rotinas saudáveis. Se, ainda assim, pensamentos assustadores incontroláveis insistirem em dominar o pensamento, vale buscar ajuda terapêutica especializada.

Porque câncer é, sim, uma doença séria; mas não devemos torná-la mais difícil do que é.

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