Nazira Mahayri: médica e coordenadora voluntária do Registro de Câncer de Base Populacional de Campinas
Como tantas crianças no Brasil, nasci numa situação econômica totalmente desfavorável na periferia de São Paulo. Comecei a trabalhar muito cedo e sempre estudei em colégios do Estado. Não me queixo: aprendi a gostar da vida, do esforço, de aprender.
Entrei na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) no curso de medicina em 5º lugar em 1978. Naquela época, ser universtário tinha um valor extraordinário. Então, aproveitei tudo que a universidade podia me oferecer. Dediquei-me ao máximo, cresci como ser humano e como futura médica.
Produzi muitos trabalhos científicos, ganhei o Prêmio Oswaldo Cruz na USP (Universidade de São Paulo) quando estava no 5º ano de medicina. Foi o primeiro lugar em clínica e cirurgia. Foi maravilhoso receber aquele prêmio; era um estudo dos fatores de risco para o nascimento de crianças com baixo peso em 800 partos consecutivos. Naquela época, não havia nada desse tipo no Brasil, por isso esse trabalho foi muito importante. Ele evitou, a partir de então, que muitas crianças fossem para as incubadoras por tabagismo ou alcoolismo das mães.
Em 1984, entrei na Residência de Reumatologia da Unicamp. Começei a trabalhar em 1987 no Centro de Saúde da Unicamp como reumatologista e continuo até hoje. Fiz meu doutorado em Saúde Coletiva e, no último mês de outubro, ganhei uma menção honrosa no Congresso Brasileiro de Reumatologia no Rio de Janeiro pelo meu trabalho de tese "Desafios da Reabilitação Profissional para o século XXI; estudo dos fatores prognósticos de acidentados do trabalho com doenças crônicas da coluna vertebral no período de 1993 a 1997, em Campinas-SP"
O registro
Agora vem o que mais gosto a minha trajetória no Registro de Câncer da Base Populacional de Campinas-SP.
Um Registro de Câncer de Base Populacional coleta todos os casos novos de câncer ano a ano, de todos os laboratórios de anatomia patológica e citologia, de todos os hospitais, clínicas, asilos, casas de repouso, centros de radiologia quimioterapia, clínicas que fazem diagnóstico por imagem, entre outros, de uma área geográfica definida (no nosso caso, o município de Campinas).
Após a coleta, esses dados são codificados, cruzados com outros dados do Registro e preparados para digitação. Depois, são analisados e emitidos relatórios para as autoridades em saúde do Brasil e do exterior. Existem registros de Base Populacional em todos os cinco continentes. No Brasil, existem 22, praticamente um para cada capital. Porém, Registro de Base Populacional de município só o de Campinas no Brasil.
O Registro de Câncer de Base Populacional de Campinas começou em 1991, foi criado oficialmente em 1992 com a Lei nº 6.986, de 11 de maio de 1992, que tornava o câncer doença de notificação obrigatória em Campinas.
Dificuldades
No entanto, o Registro não tinha infra-estrutura nem verba permanente para o seu funcionamento. Os dados foram coletados com dificuldade, e as notificações, apesar de obrigatórias, não foram realizadas pelos médicos que diagnosticavam câncer. A coordenadora que implantou o Registro, depois de muita luta, optou por fazer residência em oncologia.
O Registro ficou sem coordenador durante um ano e meio porque ninguém queria assumir um Registro de Câncer naquelas condições: coleta defasada, sem recursos financeiros e humanos, sem prestígio.
Como estava fazendo pós-graduação em Epidemiologia, fui convidada para coordenar o Registro de Câncer de Base Populacional de Campinas. Senti o peso da responsabilidade, mas vi a oportunidade de um trabalho da maior importância para a comunidade. O Registro não poderia fechar. Arregacei as mangas e fui à luta, mais uma vez. Eu era uma reumatologista bem-sucedida, não precisava.
Meus conhecimentos em oncologia eram os curso de graduação em medicina. Fui para o Rio de Janeiro, no Instituto Nacional de Câncer, e fiz um treinamento intensivo. Voltei, tirei o pó, organizei o Registro e coloquei em funcionamento novamente. Trabalhava até nos domingos.
Não havia dinheiro. Pedi a inúmeras fundações. Não vou citar os nomes, por uma questão de ética, mas todas negaram. Então, comprava com o meu salário de médica e funcionária pública tudo o que o Registro precisava: impressora, computador, cartucho, pagava os Correios, passe de ônibus e tudo o mais para o Registro não fechar.
Resultados
Os resultados do nosso trabalho foram aparecendo em forma de publicações, teses, estimativas, incidência, análise de sobrevida, geoprocessamento, entre outros. Ganhamos duas menções honrosas com nossos trabalhos em 2000 e 2002.
Pela qualidade, nossos dados foram aceitos pela Agência Internacional de Pesquisas em Câncer, a IARC da Organização Mundial de Saúde, após rigorosa seleção.
Hoje, o Registro de Câncer de Base Populacional de Campinas está entre os 200 melhores Registros de Câncer do mundo. Para conseguirmos sobreviver, fiz eu mesma logotipo, campanhas, camisetas, bottons e, após seis anos de muita luta, conseguimos em 2004 um convênio com Ministério da Saúde/Conprev/INCA até o mês de agosto de 2005 para a contratação de pessoal. Estamos defasados na nossa coleta, que é ativa, isto é, vamos onde há casos diagnosticados de câncer (todos os tipos).
Nunca desistimos. Tivemos duas enchentes em nossa sala em 2003 que destruiu todo o nosso equipamento e molhou muitos papéis. Mas comprei tudo de novo: teclado, mouse, no break etc. e muito plástico. Agora tudo esta forrado, se chover aqui dentro de novo, não vai estragar mais nada.
Participamos de vários estudos para a classificação dos linfomas e leucemias na elaboração da CID-O3 a convite da IARC.
Detectamos o aumento de linfomas em crianças em Campinas. Mas o nosso trabalho não se restringe à elaboração de dados estatísticos. Embora não faça parte das atividades de um Registro de Câncer, gostamos e trabalhamos com a prevenção, esclarecendo a população. Por esse trabalho, ganhamos no último dia 22 um diploma de mérito médico da Câmara Municipal de Campinas.
Por essa razão, acredito que este contato com a ABRALE será de suma importância para todas as partes, pacientes, população, autoridades em saúde, na divulgação de informações de qualidade que permitam ações conjuntas para que vidas sejam salvas em todo o país. O câncer é a terceira causa de morte, e a população está envelhecendo.
Um abraço carinhoso, muito sucesso.
Nazira
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