Kátia Pio da Silva: psicóloga
Sou psicóloga e gostaria de falar de minha experiência em psico-oncologia.
Comecei a trabalhar como voluntária quando me mudei de São Paulo para Presidente Prudente. Eu já tinha uma experiência de 10 anos no atendimento a pacientes com câncer.
Iniciei meu trabalho no Hospital do Câncer, na Santa Casa de Presidente Prudente. Mas após alguns dias, fui mandada embora por ter falado sobre o câncer aos pacientes.
Fiz um grupo onde eu abordei os quatro estágios da doença, falei que o câncer tem cura se o tratamento for levado a sério. Enfim, falei praticamente o que eu li nesse site da ABRALE, mas acho que algo deu errado.
Quando me dispensaram, disseram que o motivo foi que eles ainda não têm o costume de dizer a palavra câncer. Depois de um tempo, pude entender melhor o que havia acontecido.
O fato é que a profissão do psicólogo está enfrentando uma grande luta frente ao ATO MÉDICO, um decreto articulado pelos médicos em Brasília. Esse ato diz que “o psicólogo somente poderá atuar mediante indicação médica”. Isso coloca o psicólogo fora de hospitais e convênios.
Porém, todos sabemos que 50% da recuperação ou do tratamento é a parte emocional de vínculos afetivos e de vontade de superar e voltar à vida para produzir bons frutos.
Hoje, trabalho com crianças em tratamento de leucemia. É maravilhoso perceber como elas conseguem reagir à doença e dar uma lição de vida para quem as vê.
A forma que encontrei para ajudar as crianças com leucemia foi:
1) Fantoches: com eles, trocamos os papéis. As crianças passam a ser os médicos e os outros, os pacientes. Cria-se um espaço para que elas mostrem como se sentem em relação ao que estão enfrentando. Esse trabalho é muito interessante porque elas todos riem muito e eu posso trabalhar as dificuldades de cada criança.
2) Mural: eu levo um rolo de papel com vários metros e lápis de cor. Com esse material, compomos um mural, onde cada um fará uma parte de um todo. Cada um tem de interagir com o desenho do outro, a partir de um tema pré-estabelecido. Esse mural ajuda a recompor os pedaços individuais, de conjunto e de união entre eles.
3) Livros: indico sempre a coleção de livros “O Corpo Humano”, da editora Globo. São fascículos em forma de história e explicações com ilustrações do corpo humano por dentro. Os “exércitos” de glóbulos vermelhos e azuis são os personagens da história. É o momento em que todas as crianças prestam atenção e ficam quietinhas, entretidas com as explicações ou com a leitura dos livros. Faz um efeito enorme nas crianças.
O livro é distribuído pela Fernando Chinaglia Distribuidora. O título “Era uma Vez... O Corpo Humano” pode ser encontrado em São Paulo, na praça Alfredo Issa, 18, centro (tel.: 11 228-1841 e 229-9427), e no Rio de Janeiro, na rua Teodoro da Silva, 821, no Grajaú (tel.: 21 577-4225 e 577-2355. Por carta: Caixa Postal 289, CEP 06543-990, Alphaville, Barueri, São Paulo.
4) Reforço escolar: oriento a parte escolar, após atendimento individual do paciente e uma breve avaliação entre a série que freqüenta e suas dificuldades e atrasos causados pela doença. Preparo o reforço com a mãe para fazer em casa.
5) Trabalho com as mães: o trabalho com as mães é paralelo, mas realizo dinâmicas de grupo sobre o tema da retomada da vida após o tratamento. Isso fortalece os vínculos de amizade entre elas fora dos atendimentos.
O que fica claro é que esse momento de tratamento é transitório, que levará o paciente e a família a uma vida diferente. Todos passam por uma transformação para serem melhores seres humanos. Se tirarem proveito dessa fase, podem produzir com melhor qualidade. O gosto de quem sobreviveu é maravilhoso, só vivendo para saber.
A parte da psicologia é conter a revolta, a agressividade e a destrutividade da criança para que ela possa passar para a fase de recuperação. Ser continente de seus conteúdos internos é o objetivo principal e o foco mais importante do meu planejamento.
Poderia dizer que sou um tipo de extensão da ABRALE porque sempre indico aos pacientes e acompanhantes que iniciam o tratamento que pesquisem nas páginas do portal ABRALE. O resultado é fantástico porque eles retornam com comentários sobre o que leram e sabendo muito mais.
Hoje, sei que o câncer que é descoberto no início e submetido a tratamento tem grandes chances de cura. E a cura vale todo o investimento na luta pela vida.
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