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José Roberto Feresin Moraes (1944-2005), médico e idealizador do REDOME (Registro de Doadores de Medula Óssea) - homenagem da ABRALE

Meu envolvimento com Imunogenética/Histocompatibilidade se deu precocemente, logo após terminada minha residência em Clínica Médica (1973), quando recebi um convite do Diretor do HSE e da Chefia de Serviço de Clínica Médica para fazer um treinamento na área, já que não havia especialistas no país e nosso hospital estava para dar início a seu programa de transplantes de órgãos sólidos (rins, principalmente). Aceitei e fui então treinar pela primeira vez na U. Texas. Ao voltar para o Brasil, implantei o Setor de Imunogenética dentro do Serv. de Clínica Médica do HSE e iniciamos, em julho de 1973, os transplantes de rins. Em 1975, já casado, voltei aos USA com minha esposa e permanecemos treinando nessa área até 1977, quando retornamos ao Rio e ao HSE. Desde então apoiamos todos os grupos que nos procuravam do Rio e de vários outros Estados para seus respectivos programas de transplantes de órgãos sólidos, durante muitos anos.

Em 1986, o INCA estava por iniciar seu projeto de Transplante de Medula Óssea, e o Diretor na época, Dr. Ary Frauzino, e a Diretora do CEMO de então Dra. Mary Evelyn Flowers, me convidaram para apoiá-los técnica e cientificamente com a equipe que dispunhamos e que já estava bastante testada e recomendada no país e no exterior. Desde então, o Laboratório de Imunogenética do HSE/INCA sob meu comando passou a ser responsável por todo o programa de seleção de pares de pacientes/doadores para transplantes de medula óssea e transplantes de outras células hematopoiéticas. Com o início de transplantes de doadores não aparentados, a criação do primeiro banco de medula óssea e finalmente o REDOME continuamos exercendo nosso papel de liderança e atualização da área no Brasil, diretamente subordinados ao Ministério da Saúde.

A CRIAÇÃO DO REDOME

Em 1988 retornamos aos Estados Unidos para o que deveria ser um ano sabático como "visiting professors" do Laboratório de Imunogenética da Southwestern Medical School da Universidade do Texas. Porém, devido aos resultados que obtivemos nas pesquisas em que Maria Elisa e eu estávamos envolvidos, conseguimos muitas publicações em revistas conceituadas na área de Imunogenética e Transplantes, surgindo então um convite do nosso chefe Prof. Dr. Peter Stastny para que prolongássemos nossa estadia, o que acabou nos levando a mais 2 anos de trabalho em Dallas. Mais tarde ele nos convidou para que ficássemos em definitivo nos USA, inclusive aplicando para o "green card" com apoio da Universidade. Lembro-me bem que, durante uma viagem Dallas - Chicago, Dr. Stastny me oficializou este convite. Pensei um pouco e para a surpresa dele e decepção de minha esposa e filhas, até então perfeitamente adaptadas em Dallas, não aceitei o convite. Questionado sobre o porquê de minha resposta respondi: ...."Nós seremos apenas mais um ou dois estudiosos nesta área neste grande país, mas creio que no Brasil poderemos fazer, nesse momento, uma grande diferença, pois poderemos iniciar lá aquilo que estamos vendo acontecer aqui: o primeiro banco de medula óssea brasileiro," o qual viria a ser o primeiro da América Latina. Pego de surpresa, o Prof. Stastny mesmo assim nos entendeu e parabenizou pela coragem e colocou a nosso dispor todo o auxílio e recomendações que pudessem ser de ajuda.

Em 1990, enviei para a direção do INCA o projeto sobre a criação do banco de medula óssea brasileiro, em vão, pois devido a situação caótica do país, não havia quase recursos para o investimento e o projeto ficou "engavetado" até nossa volta em 1991. Ao retornarnos ao Rio e ao Laboratório de Imunogenética do HSE/INCA, ficamos desesperados com a total falta de recursos para a área pública. Era impossível se implantar qualquer novidade naquelas circunstâncias.

Poucos meses após fomos convidados pela chefia do Serviço de Hematologia e Hemoterapia da USP para uma visita. Eles já nos haviam anteriormente sondado sobre a possibilidade de retorno direto de Dallas para S. Paulo para dar apoio ao programa de TMO que lá estava se iniciando. Logo, um convite oficial se seguiu, e um projeto fora aprovado para investimento na área havendo muitos recursos a nosso dispor. Não tivemos portanto alternativa: diante da carência encontrada no Rio e das oportunidades oferecidas por S. Paulo, acabamos nos transferindo para a capital paulista onde encontramos tudo o que desejávamos e viemos a ter participação nos primeiros transplantes de medula óssea com doadores não aparentados ocorridos na América Latina, inclusive no primeiro transplante de medula óssea com doador brasileiro do REDOME, cuja paciente está viva e curada.

As dificuldades encontradas para a criação do REDOME foram enormes e sempre devido à falta de visão política e de recursos para investimento. Como Presidente da Associação Brasileira de Histocompatibilidade (ABH) na época, escrevi em 1993 um projeto que propunha a atuação de 20 laboratórios daqueles credenciados no país, os quais trabalhando em conjunto e realizando tipagem de 50 doadores voluntários por mês, viriam a dar cerca de 12 a 14000 doadores por ano, provindo de várias regiões do país. Alguns laboratórios iniciaram esta colaboração conosco, mas a maioria não pode arcar com as despesas, já que não havia na época nenhuma participação por parte do Ministério da Saúde e nem outro apoio que levasse os mesmos a ter uma fonte de financiamento para esses exames. Durante vários anos o projeto cresceu lentamente acrescentando-se como causa ainda o desgaste político que ocorreu entre a instituição em que estávamos e o Ministério da Saúde. Finalmente em fins de 1997 quando tínhamos cerca de 4000 doadores cadastrados ocorreu uma ruptura do processo, o que nos levou a retornar ao INCA, órgão do Ministério da Saúde, onde deveríamos dar continuidade ao REDOME agora com verbas prometidas. Foi só em fins do ano 2000 que sairam publicadas no Diário Oficial de União as primeiras portarias do Ministério da Saúde, normatizando e orientando todo o processo de busca, seleção, captação e transporte de medula óssea e de células hematopoiéticas, as quais contaram com a participação das maiores autoridades científicas da área no país em várias reuniões realizadas no INCA, no HSE, em S. Paulo, Brasília etc.

A partir daí, embora inúmeras correções e adendos nunca realizados necessitassem ser feitos nas portarias publicadas, o processo continuou e se desenvolver melhor.

Ao me despedir da direção do REDOME e da direção do DITRAN em 2002 devido a minha doença, a qual me levou à aposentadoria precoce, cerca de 40 laboratórios já participavam do programa, cerca de 40.000 captações já haviam sido realizadas e a grande maioria delas já com dados cadastrados no sistema de informática que ajudamos a elaborar para encontrar doadores para pacientes brasileiros. Até então, embora ainda lento devido às imperfeições que se demonstravam no aperfeiçoamento do sistema, mais de 20 transplantes com doadores não aparentados já haviam sido realizados pelos grupos de Curitiba e do Rio de Janeiro com material obtido pelo REDOME no Brasil e no exterior na sua maior parte. Até então, o programa era um verdadeiro sucesso. Faltava a ele apenas um aperfeiçoamento que pudesse ao mesmo mais destreza e agilidade, fatos que costumamos observar em outras atividades não públicas.

Jose Roberto Feresin Moraes