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Ana Lúcia Beltrati Cornacchioni – oncologista pediátrica e membro do Comitê Científico da ABRALE

O contato com o câncer infantil em minha carreira foi muito precoce, iniciando-se ainda nos últimos anos da graduação, quando me interessei por aspectos do tratamento e as possibilidades de novas terapias, mas principalmente pela possibilidade de cura de uma doença tão grave que, somente a partir da década de 80 passou a ser uma realidade no Brasil.

Realizei minha graduação na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto - USP, onde tive a oportunidade de trabalhar com o Prof. Dr. Luís Gonzaga Tone, aprendendo sobre o câncer infantil, particularmente a Leucemia Linfocítica Aguda.

Após completar minha graduação vim a São Paulo para fazer residência médica, primeiramente em Pediatria e, após 2 anos, iniciei minha formação em oncologia pediátrica no serviço cuja chefia é feita pelo Prof. Dr. Vicente Odone Filho, pessoa que admiro e me espelho por ser esse um profissional muito competente, mas acima de tudo muito humano .

Nessa época, passei a trabalhar integralmente com a criança com câncer, a princípio no Instituto da Criança – HCFMUSP. Depois, atuei por 10 anos na cidade de Sorocaba (SP), onde tive a oportunidade de contribuir na organização de um serviço de oncologia pediátrica que oferecia aos pacientes um tratamento integral: médico (com quimioterapia, internação e terapia intensiva), enfermagem, serviço social, psicologia, nutrição, dentista e vários outros profissionais agregados. O paciente era tratado num conceito multidisciplinar, com envolvimento de todas as áreas do conhecimento, podendo desta forma receber um tratamento completo visando sua qualidade de vida durante e após a terapia.

Trabalhar com o paciente com câncer é um grande desafio em vários aspectos. Primeiramente no aspecto científico, já que a contínua descoberta de novos tratamentos faz com tenhamos que nos manter sempre atualizados para que nosso paciente receba a terapêutica que lhe proporcionará melhores chances de cura. Outro grande desafio é dar ao paciente um tratamento humanizado, onde o médico esteja próximo ao paciente dando a ele a atenção e todas as informações sobre a doença de forma clara. Isso é importante para nos aproximar do paciente e fazer com que ele confie e compreenda todos os aspectos de seu tratamento. Acredito que, quando esse vínculo médico-paciente é fortalecido pela clareza e pela honestidade nas informações dadas pelo médico e por sua equipe de trabalho, o caminho trilhado pelo paciente se torna menos árduo, com maior chance de sucesso terapêutico.

Trabalhar com esses pacientes é sempre um grande prazer, pois aprendo todos os dias não só com os desafios científicos que a carreira exige, mas também uma forma diferente de valorizar cada dia da vida como uma verdadeira dádiva divina. Eu me procuro não me preocupar muito com as dificuldades do dia-a-dia que todos nós temos, mas sim valorizar a família, os amigos e todas as relações humanas.

Há sempre em qualquer profissão que escolhemos muitas dificuldades, que temos a facilidade de esquecer e as conquistas que temos o dom de nos lembrarmos para sempre. Quando penso nas conquistas, tendo a me lembrar especialmente da formatura, o início do exercício na oncologia pediátrica, onde tive a oportunidade de trabalhar com os melhores especialistas do Brasil em um aprendizado contínuo. Também me lembro de minha defesa de mestrado, quando tive a oportunidade de realizar um trabalho científico relevante. Mas talvez as conquistas que mais aqueçam meu coração são aquelas em que vejo, após esses anos de prática, os pacientes que tive a oportunidade de tratar curados, felizes e podendo desfrutar de uma vida plena de realizações.