Efeitos Tardios do Transplante de Medula Óssea – Abril de 2006
Dr. Daniel Tabak
Introdução
O número de indivíduos que sobrevive após o transplante de medula óssea (TMO) aumenta rapidamente a cada dia. Mais de 40.000 transplantes são realizados anualmente em todo o mundo. Embora apenas 62% dos pacientes sobrevivam o primeiro ano após o transplante, 98.5% dos pacientes que permanecem vivos por 6 anos viverão, pelo menos, mais um ano. As principais complicações tardias e os fatores de risco identificados após o transplante de medula óssea estão listados na tabela 1. A maioria delas está relacionada à Doença do Enxerto contra Hospedeiro Crônica (DECH) não sendo ainda possível identificar claramente contribuição dos fatores genéticos, da doença original, do tratamento pré-transplante e de fatores associados diretamente com o transplante. O período de seguimento ainda é curto para conclusões sobre como os regimes não mieloablativos irão modificar o panorama das complicações tardias pós TMO. Também é importante ressaltar que complicações tardias também são descritas em pacientes portadores de neoplasias hematológicas, submetidos ao tratamento convencional que não inclui o TMO.
Embora o transplante esteja associado com uma morbidade precoce significativa, grande número de pacientes que sobrevivem por anos após o TMO, apresenta boa saúde. Seqüelas importantes, entretanto, representam um tributo significativo para esta conquista. A detecção precoce de muitas destas complicações pode contribuir para o seu melhor manuseio.
Este artigo é baseado nas recentes recomendações para o seguimento de pacientes transplantados publicadas pelo European Group for Blood and Marrow Transplantation (EBMT), o Center for International Blood and Marrow Transplant Research (CIBMTR) e a American Society of Bone Marrow Transplantation (ASBMT).
Doença Enxerto Contra Hospedeiro Crônica (DECH)
A DECH é a principal complicação associada ao TMO. A síndrome apresenta características semelhantes a um processo auto imune e sua patogênese ainda é parcialmente conhecida. O processo geralmente é antecedido pela DECH aguda nos primeiros três meses após o transplante.As manifestações podem ser restritas a um órgão ou ser disseminadas com conseqüências debilitantes devido a contraturas articulares, perda da visão, insuficiência respiratória e mortalidade associada à imunossupressão crônica e infecções resultantes.
A incidência de DECH crônica varia de 6 a 80% de acordo com a idade do paciente, tipo de doador, fonte de células tronco, manipulação do enxerto e uso de infusões de linfócitos após o transplante. A primeira classificação da DECH crônica foi publicada em 1980 baseada na análise de 20 pacientes. A heterogeneidade da síndrome torna difícil não apenas o diagnóstico mas também a avaliação da gravidade e os parâmetros de resposta.Em 2005, especialistas da área assumiram um projeto de grande magnitude no sentido de revisar e padronizar todos os aspectos relevantes que envolvem o manuseio de pacientes portadores de DECH crônica. As conclusões do grupo vem sendo publicadas e constituem um importante instrumento para o acompanhamento adequado de pacientes transplantados.
Infecções
Infecções são comuns após o TMO, pois a recuperação do sistema imunológico ocorre gradualmente no período de 12 a 18 meses. O processo ocorre mais lentamente após os transplantes alogênicos, após os transplantes não consangüíneos e quando o enxerto é depletado de linfócitos T. A ocorrência de DECH retarda significativamente o processo de recuperação imunológica. Embora o risco de infecções seja maior nos primeiros dois anos após o procedimento, ele pode persistir indefinidamente. Os pacientes devem ser orientados sobre este risco e a procurar rapidamente a atenção médica quando surgirem sinais de infecção. As infecções bacterianas mais freqüentemente identificadas são causadas por bactérias encapsuladas (N. meningitidis, H. influenza, S. pneumoniae) e podem causar infecções rapidamente progressivas. Aspergilose pulmonar e dos seios da face tem sido identificadas, principalmente em pacientes portadores de DECH crônica. Infecções tardias por citomegalovirus (CMV) são mais freqüentes em pacientes que apresentam reativação precoce e nos portadores de DECH crônica. Infecções pelo vírus Varicella zoster são comuns no primeiro ano pós-transplante e o uso prolongado de aciclovir reduz o risco de reativação. Infecções por P. carinni são mais freqüentes nos primeiros seis meses, porém podem ocorrer mais tardiamente em pacientes nos quais o uso de corticosteróides se estende por um longo período. Sinusite é freqüente principalmente em pacientes que apresentam níveis reduzidos de imunoglobulinas e hipertrofia mucosa associada ao uso de ciclosporina e tacrolimus.
Alguns autores reconhecem níveis absolutos de linfócitos CD4> 400/l como um indicativo da reconstituição imunológica. A manutenção de níveis de IgG acima de 400mg/dl com a utilização de imunoglobulina suplementar pode minimizar o risco de complicações infecciosas.
Complicações Orais
A radioterapia, como parte do regime de condicionamento, é responsável pela redução da produção de saliva. Este fenômeno também está associado à DECH crônica e é um dos principais responsáveis pela proliferação bacteriana e o risco elevado que estes pacientes apresentam para a formação de cáries. A aplicação regular de flúor e a utilização de saliva artificial podem minimizar as conseqüências do processo, facilitar a mastigação e permitir uma melhor alimentação. Avaliações dentárias regulares são críticas para o controle das complicações.
O comprometimento oral pela DECH crônica é responsável pelo aparecimento de ulcerações, por vezes de difícil cicatrização.
A DECH crônica também é um importante fator de risco para o desenvolvimento de neoplasias de cabeça e pescoço principalmente quando a radioterapia faz parte do regime preparatório.
Complicações Hepáticas
A DECH crônica comprometendo o fígado é caracterizada por colestase. Entretanto, uma biópsia hepática é freqüentemente necessária para o diagnóstico diferencial entre as hepatites virais e da sobrecarga de ferro após a utilização de grande número de transfusões. Freqüentemente o envolvimento pelo vírus da hepatite é assintomático. Entretanto, cerca de 25% dos pacientes apresentam evolução para cirrose. Em pacientes portadores de hepatite B, a retirada de imunossupressão pode resultar em exacerbação do quadro inflamatório e descompensação da função hepática. A monitorização molecular da carga viral é útil na decisão sobre o uso de agentes antivirais.O uso do interferon para o controle da proliferação viral deve ser feito com cautela devido ao risco de reativação da DECH. A monitorização dos níveis séricos de ferritina é útil para avaliação da sobrecarga de ferro e a decisão sobre o uso de quelantes após o transplante. Esta decisão deve ser tomada com cuidado devido ao risco mais elevado de infecções fúngicas em pacientes submetidos a tratamento prolongado com estes agentes.
Complicações Respiratórias
Doença restritiva pulmonar pode ser documentada três a seis meses após o transplante, principalmente em pacientes condicionados com irradiação corporal total. O comprometimento pode ser progressivo e fatal.
Já a doença pulmonar obstrutiva crônica pode ser identificada em até 20% dos sobreviventes ao transplante. Embora mais freqüentemente associada a DECH crônica (bronquiolite obliterante), outros fatores de risco incluem a irradiação corporal total, hipogamaglobulinemia, uso do metotrexate na profilaxia de DECH e infecções recorrentes.
A monitorização das provas de função pulmonar é útil para o diagnóstico e prognóstico: uma redução importante do volume expiratório forçado(FEV1) indica um risco de morte mais significativo. Este quadro denominado bronquiolite obliterante apresenta resposta limitada aos corticosteróides e demais imunossupressores. O controle das infecções é crítico, principalmente das infecções recorrentes dos seios da face, muito comuns em pacientes que fazem uso de inibidores de calcineurina. Pacientes devem abandonar por definitivo o hábito de fumar e receber as imunizações conforme as recomendações habituais.
Disfunções Endócrinas
Hipotireodismo:
Disfunção tireoidiana ocorre em 15 a 25% dos pacientes submetidos à irradiação corporal total, sendo menos freqüentes após os regimes preparatórios que incluem apenas a quimioterapia. O risco é maior em pacientes submetidos à irradiação craniana e irradiação da região cervical. A apresentação habitual inclui níveis séricos reduzidos de hormônios tireoidianos por meses ou anos após o transplante. O acompanhamento periódico e a terapia de reposição, quando necessária, garantem o controle do problema.
Disfunção Gonadal:
Mulheres com idade superior a 25 anos freqüentemente evoluem para falência ovariana, infertilidade e menopausa precoce após os regimes preparatórios convencionais. A instalação súbita da menopausa pode determinar o aparecimento de sintomas de uma forma mais intensa que o processo natural. Em mulheres mais jovens a utilização de regimes não mieloablativos poderá permitir a recuperação da função ovariana após o primeiro ano do transplante.Estudos seqüenciais serão , entretanto, necessários para documentar a superioridade dos regimes de intensidade reduzida na manutenção da função gonadal.
Em homens o epitélio germinativo testicular onde ocorre a espermatogênese (células de Sertoli) é mais sensível à radiação e a quimioterapia que as células de Leydig, responsáveis pela produção de testosterona. Desta forma, os níveis de testosterona são habitualmente preservados após o TMO, enquanto a espermatogênese é abolida. Portanto, a maioria dos pacientes não necessita de reposição de testosterona para a manutenção da atividade sexual e da libido.
As pacientes do sexo feminino devem receber reposição cíclica de estrogênio e progesterona para a manutenção dos ciclos menstruais, controle dos sintomas vasomotores, manutenção da libido, função sexual e da densidade óssea. Em geral a falência ovariana é definitiva em mulheres adultas, porém, em mulheres jovens a recuperação da função gonadal pode ser raramente observada. A interrupção da reposição hormonal por um período de seis meses pode ser considerada a cada dois ou três anos no sentido de avaliar a recuperação gonadal espontânea.
A presença de DECH crônica comprometendo a vagina pode resultar em complicações fibróticas que comprometem ainda mais significativamente a função sexual. O reconhecimento precoce destas complicações permite a abordagem apropriada com agentes lubrificantes e dilatadores.
Em meninos o início da puberdade ocorre de forma habitual. Em meninas o início da puberdade deve ser monitorizada de forma mais cuidadosa e a reposição hormonal iniciada caso o processo não se inicie aos 12 ou 13 anos.
A recuperação da fertilidade após o transplante depende não apenas da idade quando o transplante é realizado, mas também da patologia original. Em mulheres portadoras de anemia aplástica, a recuperação da função gonadal é habitual em pacientes com idade inferior a 25 anos. Em mulheres portadoras de doenças malignas, a recuperação da função gonadal ocorre em menos de 10% das pacientes e a observação de gestações é inferior a 3%. Existe também um risco elevado de abortos espontâneos.A paternidade também é incomum, com o retorno da função gonadal em menos de 15% dos pacientes do sexo masculino.
O comprometimento da função reprodutiva determina que esta complicação seja abordada detalhadamente no período pré-transplante. As alternativas incluem a implantação de embriões criopreservados, a criopreservação do sêmen ou de tecido ovariano pré-transplante. Estes aspectos precisam abordadas bem como as possíveis interações com o tratamento do processo patológico imediatamente antes do TMO.
Embora os cuidados devam ser discutidos na preparação para a infertilidade, cuidados com a contracepção também devem ser valorizados no período imediato após o transplante. A instalação da falência gonadal pode não ser imediata, principalmente quando o regime de condicionamento não inclui altas doses de busulfan ou irradiação corporal total.
Crescimento e Desenvolvimento em Crianças:
O crescimento e desenvolvimento são normais após a utilização exclusiva de ciclofosfamida no regime preparatório. Crianças que recebem irradiação corporal total, principalmente se precedida por irradiação craniana apresentam freqüentemente redução na produção do hormônio do crescimento. A associação com DECH e o uso associado de corticosteróides contribui para o problema. A terapia de reposição com hormônio de crescimento pode permitir uma normalização da curva de crescimento.
Complicações Oculares
A opacificação do cristalino é uma das complicações mais freqüentes após a irradiação corporal total. Embora a incidência de cataratas seja reduzida com o fracionamento da dose de radioterapia, o processo ainda é freqüente. Também pode ocorrer anos após o transplante. A utilização de corticosteróides também contribui significativamente para este problema. O tratamento é cirúrgico.
A síndrome sicca ocular acompanha freqüentemente o quadro sistêmico associado a DECH crônica. A redução do fluxo de lágrimas, associado à conjuntivite estéril evolui com freqüência com a formação de úlceras da córnea. O tratamento inclui lubrificantes locais e uma abordagem agressiva da DECH crônica.
O uso contínuo da ciclosporina freqüentemente determina alterações isquêmicas microvasculares retinianas, principalmente em pacientes submetidos à irradiação corporal total. O diagnóstico diferencial inclui infecções causadas pelo citomegalovirus, fungos filamentosos e toxoplasmose.
Complicações Esqueléticas
A redução da massa óssea é freqüente após o transplante de medula óssea. Vários fatores contribuem para a osteopenia: uso crônico de corticosteróides e inibidores de calcineurina, a diminuição da atividade física e a ausência da produção de estrogênios.
As medidas preventivas devem incluir suplementação de cálcio e vitamina D bem como a reposição de estrogênio em mulheres.
O uso crônico de corticosteróides contribui significantemente para o aparecimento de infartos ósseos e a necrose avascular. Dor geralmente é o primeiro sintoma com envolvimento prioritário dos ossos do quadril. O comprometimento dos joelhos, punhos e da cintura escapular escapular embora menos freqüentes, devem ser sempre considerados. Cerca de 80% dos pacientes que desenvolvem esta complicação necessitam substituir a articulação comprometida por uma prótese, em algum momento da sua evolução. Desta forma, o uso de altas doses de corticosteróides deve ser, sempre que possível, limitado.
Neoplasias Secundárias
A irradiação corporal e a imunossupressão prolongada contribuem para a maior incidência desta complicação devastadora em pacientes submetidos ao TMO. O risco do desenvolvimento de tumores sólidos é duas a três vezes maior quando comparado a um grupo controle. A ocorrência de DECH crônica contribui principalmente para o surgimento de neoplasias da cavidade oral. No entanto, praticamente todos os tipos de câncer já foram descritos em pacientes submetidos a transplante autólogo e alogênico. O risco é crescente após 10 anos de TMO. Mielodisplasia e leucemia secundária ocorrem em quase 5% dos pacientes nos dez primeiros anos após o transplante autólogo. O risco é maior em pacientes expostos a agentes alquilantes e à doses elevadas de radioterapia. As desordens linfoproliferativas pós-transplante ocorrem precocemente. Os principais fatores de risco são: a disparidade HLA, o uso de depleção de linfócitos T e DECH. O processo é secundário a uma proliferação descontrolada de linfócitos B determinada pela infecção pelo vírus Epstein-Barr.
A presença de DECH e a maior sensibilidade à irradiação ultravioleta tornam os pacientes particularmente vulneráveis a ação carcinogênica da luz solar. O uso de agentes fotoprotetores deve ser sempre valorizado.
Ajuste Psicosocial e Qualidade de Vida
Depressão é freqüentemente observada em pacientes que sobrevivem ao transplante de medula óssea. Fadiga, insônia, problemas no relacionamento conjugal podem comprometer a qualidade de vida. O desenvolvimento escolar pode ser prejudicado nos pacientes pediátricos e a disfunção sexual é uma queixa freqüente nos pacientes adultos.
Quando comparados a um grupo controle, um estudo recente revelou que pacientes transplantados referem maior rigidez muscular, câimbras, dores articulares, maiores restrições na função social, maior preocupação com distúrbios da memória e atenção e maior uso de psicotrópicos. Em várias áreas, entretanto, os problemas relatados não podem ser claramente separados daqueles descritos pelo grupo controle.
Recidiva da Doença
Recidivas ocorrem após o transplante de medula óssea e a sua freqüência é principalmente determinada pelo estádio da doença na ocasião do transplante. A infusão de linfócitos do doador pode ser utilizada como imunoterapia de resgate; entretanto, o sucesso observado depende do diagnóstico, da forma e do tempo de apresentação da recidiva. Freqüentemente o seu uso é complicado pela ocorrência de DECH.
Conclusão
Complicações pós-transplante são freqüentes nos anos que se seguem ao tratamento inicial. O acompanhamento rigoroso permite que muitas destas alterações sejam detectadas precocemente e abordadas de forma adequada. O seguimento cuidadoso permite ainda o acompanhamento das alterações psicosociais que comprometem a qualidade de vida dos pacientes transplantados.
A reintegração do paciente na sociedade deve ser considerada tão importante quanto a monitorização específica da doença. O apoio de familiares e dos grupos multidisciplinares é fundamental para a sua recuperação como indivíduo e para o aprimoramento da sua qualidade de vida.
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