Teresa Machado Rodrigues
Li, adorei e aconselho a todos lerem os 10 Princípios da Chave Para uma Segunda Chance que o Reiner Franthesco Perozzo colocou no depoimento dele (Agosto 2008).
Mas, de qualquer forma, gostaria de complementar o que ele diz, com o ponto de vista de uma mulher com quase o dobro da idade dele e que, por isso, vê a vida de um jeito diferente.
Resumindo minha história, em maio de 2009 tive o diagnóstico de Linfoma de Hodgkin Esclerose Nodular, com estadiamento IIIB X, com IPS 3, ou seja, com três fatores de prognóstico desfavorável (Traduzindo: tudo muito ruim). Segundo meu médico, pelas estatísticas, minhas chances são de 60% de sucesso.
Assim começou a experiência que eu quero compartilhar, e que vou resumir nos meus 10 passos.
1. Encarei a morte de frente.
Afinal, alguém duvida de que vai morrer de alguma coisa um dia? A única diferença é que para mim, em duas situações ela chegou perto “mesmo”. Preparei-me para ela: organizei minha vida (amorosa, familiar, financeira, doméstica), esclareci todas as situações mal resolvidas que fui juntando durante a vida, organizei todas as informações práticas importantes (dívidas, conta no banco, senhas, etc.). Combinei com pessoas queridas e de confiança o cuidado com aqueles que dependem de mim, quando eu estiver ausente. Arranjei lares adotivos para os cachorros e recomendei a todos que amam a minha filha (já adulta) tanto quanto eu que cuidem dela por mim.
2. Resolvi aproveitar a vida.
Pensei com os meus botões, se os próximos meses ou anos serão os últimos da minha vida, eles precisam ser muito bons e não vou viver em função da doença. Melhorei tudo o que tinha em volta, arrumei e embelezei a minha casa, passei a cozinhar coisas deliciosas para mim, olho para as pessoas que estavam ao meu redor e para as quais não tinha tempo quando estava sadia.
3. Decidi que não ia ser a vítima, mas a protagonista da história.
A vida é interessante porque não é perfeita. Ela tem surpresas ou acasos bons e ruins. Com todo mundo é assim. Todo mundo tem problemas, alguns piores, outros melhores.
Todo mundo tem a sua dose de sofrimento, de alegria, de fracasso ou de sucesso. Entre ser a “coitadinha doente” e a “persistente, teimosa, perguntadeira, insistente, chata, briguenta”, eu escolhi a segunda opção. Isso me permite também chorar sempre que eu tenho vontade.
4. Aprendi a ter a humildade de aceitar ajuda.
Isso é muiiiiito difícil para quem estava acostumada a ter uma vida totalmente independente. Mas não tem jeito, tem uma hora em que a gente precisa de alguém por perto para ajudar. Por outro lado, nesse momento você descobre que tem gente que ama e que quer você tão bem, que está disposto a fazer um monte de coisas para deixar você se sentir melhor e mais feliz. Passado o trauma inicial, aproveite!
5. Aderi ao tratamento com uma disciplina de “Ninja”
Tive a sorte de encontrar um médico que eu admiro, com quem gosto de conversar, em quem confio e pergunto para ele absolutamente tudo. Não dou um suspiro a mais sem perguntar para ele. Faço absolutamente tudo o que me mandam ao pé da letra.
Corro para o Pronto Socorro ao menor sinal de que pode estar acontecendo alguma coisa errada.
Por outro lado, “deleto” a parte ruim do tratamento. A dor vem e passa, se não passar, ela vai continuar igual, seja enquanto você fica gemendo e reclamando ou enquanto você ficar fazendo alguma coisa prazerosa. Eu prefiro gastar meu tempo com coisas prazerosas e deixar a dor lá, no cantinho dela. Isso vale também para o enjôo (ainda bem que tive quase nada), para os dedos formigando, para a mucosite, para as tonturas, para as alterações de visão, o cansaço, os hematomas, as veias que estouram, e assim por diante. Claro que muitas vezes a melhor coisa a fazer é deitar um pouquinho, ficar quietinha ou mesmo dormir bastante.
6. Virei uma maníaca por limpeza e higiene.
Depois de quase morrer por uma infecção, logo depois da primeira sessão de quimioterapia, jurei que aquilo nunca mais ia acontecer de novo.
A cozinha virou um “Centro Cirúrgico”. Louça muita bem lavada e protegida, geladeira impecável, alimentos protegidos, nunca comer alimentos crus.
Os cachorros foram expulsos das camas, dos sofás, das cadeiras, ganharam espaços separados. Chegar muito perto, afagar e abraçar só depois que a quimioterapia acabar. É de cortar o coração, mas eu compenso com muitos petiscos e palavras de carinho. Melhor do que me livrar deles, como muitos aconselharam.
Passei a lavar as mãos umas quinhentas vezes por dia, com álcool gel para finalizar. Comer ou colocar as mãos nos olhos, nariz e boca, só depois desse processo.
Escovar os dentes religiosamente depois de comer e completar com gargarejo com bicarbonato de sódio.
E para todas as outras situações em que é preciso lidar com coisas sujas ou contaminadas, se equipar com luva de borracha, máscara e tudo o que tiver direito.
7. Resolvi me manter bonita.
Sabia que o cabelo ia cair e muito antes disso, já fui pesquisando às melhores alternativas. Comprei, fiz, ganhei, emprestei um monte de lenços, lencinhos, echarpes. Pesquisei as melhores amarrações, o que combinava com o que, as cores, os tecidos e as estampas mais legais. Testei tudo, umas coisas ficaram um horror. Hoje já tenho as minhas preferidas. Divertida mesmo foi a ida à loja de chapéus. Com exceção de um boné para proteger do sol, nunca usei nenhum. Hoje tenho um monte, todos no maior “estilo”. Adoro!
Mas pior que o cabelo cair é a falta de sobrancelhas e cílios. Aquela cara cinza, inchada de tanto corticóide! Visual “natural”? Esquece! Sombras em tons variando do bege ao marrom, um batom legal, dão jeito em tudo, mas cuidado para não sair de casa com duas “taturanas” em cima dos olhos.
E as unhas que vão ficando pretas? Esmalte vermelho nelas! Só não deixe muito tempo para poder vigiar se tem alguma alteração importante. Mostre para o médico sempre.
Confortável não é sinônimo de feio. Capricha na roupa, combina as cores, põe salto alto sempre que possível. Mesmo que os seus compromissos mais importantes do mês sejam a quimioterapia ou a visita ao médico. Por favor: não saia de casa de pantufas e penteie o cabelo, mesmo que seja para ir correndo para o Pronto Socorro. Se não conseguir pensar nisso sozinha, peça para quem estiver por perto não deixar você sair de casa assim.
8. Uso quilos de creme hidratante e protetor solar.
No rosto, no corpo e principalmente nas mãos, aos montes, toda hora.
9. Sempre arranjo um bom motivo para acordar no dia seguinte.
Pode ser lavar a louça, arrumar a gaveta do armário, fazer um bolo, tricotar, assistir TV, ir à aula de inglês, aprender a bordar, fazer almoço, faxinar a casa, visitar a amiga. Mas nunca fique sem fazer nada. Tive a sorte de poder me afastar do trabalho, mas sempre arranjo um “projeto” novo. Mesmo que seja ir até a padaria comprar pão.
Alguns efeitos colaterais da quimioterapia atrapalham, os dedos formigam, as coisas vivem caindo no chão, eu não ligo e continuo fazendo o que é possível. Só tomo cuidado com situações onde eu posso me machucar. Quando estou meio tonta, não saio sozinha; se vou pegar coisas pesadas e quentes (cozinha) peço ajuda. Cuidado especial com objetos cortantes, como facas, tesouras, etc.
10. Faço planos para o futuro.
Como não tenho bola de cristal, e não sei o que vai acontecer, já tenho os planos A, B e C para quando eu sarar. Se eu não sarar, a minha vida já está toda arranjada e eu vou seguindo feliz por ela, afinal, a doença me fez melhorar um monte de coisas.
Bem, sem maiores pretensões, eu espero que a minha vivência sirva de alguma coisa para outras pessoas.
Mas quero acabar o meu relato com uma notícia boa, que eu deixei para o final.
É que apesar do meu prognóstico ruim, depois da segunda sessão de quimioterapia eu entrei em remissão completa, todos os meus linfomas desapareceram.
Agora estou terminando a quimioterapia, vou começar a radioterapia e depois fazer o acompanhamento e esperar o futuro para ver o que acontece.
Um grande abraço a todos que tiveram a paciência de me ler até aqui.
Depoimento escrito por Teresa, em fevereiro de 2010
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